E, apesar de inconsistência do charme, é uma coisa que me aborrece. Dou por mim muitas vezes a interpretar mal e a ser erradamente interpretada. Já aqui falámos sobre os problemas da interpretação, os limites da linguagem, a inconsistência do verbo e outras picardias, mas hoje (hoje!) não me vou debruçar sobre essas questões teóricas, tão bonitas para quem tem disponibilidade para com elas dispender o seu tempo. Não. Hoje vou-me debruçar sobre o concreto e fazer juz ao título. Hoje vamos falar de insultos!
E como tão bem sabe o interlocutor, um insulto só é verdadeiramente insultuoso quando atinge o visado na mouche!
Para os mais desatentos isto significa tão somente que até na arte de insultar temos de ser originais, temos de encontrar as palavras certas, as que magoam, as que ferem, alinhavá-las num conjunto de palavras, qual arco ou besta setecentista, pressionar com força, e num gesto sublime de elegância deixar a seta atingir o alvo (mantendo sempre um olhar superior e gélido, que tem um efeito multiplicador).
Daí retiramos que insultos vulgares como "filho-da-puta", "cabrão", "cabra", só podem insultar quem efectivamente se sinta visado, por outras palavras, quem é descendente de uma alternadeira e quem tem ou já teve a bela ossatura curvilínea na cabeça; para os restantes é insulto que passa ao lado.
Nestas coisas da arte do insulto nunca mais me vou esquecer das palavras de D, que num assomo de fúria, dispara em tom bombástico "Aquele filho da puta paneleiro, que eu não tenho nada contra os homossexuais, mas quando é para insultar serve perfeitamente!".
Efectivamente D não tinha nada contra homossexuais, muito pelo contrário, e eu, na altura jovenzinha e caladinha que nem um rato nada disse, apesar de pensar que era uma coisa estúpida de se defender, já que assim se perpetuava a homofobia, ou quando muito uma visão espartilhada da vida e da arte do insulto.
Contudo, claro que tinha de haver um mas, na sublime arte do insulto não podemos ser detidos por considerações éticas, do "Ai-que-não-tenho-nada-contra-putas-mas-tu-és-uma-da-pior-espécie!"; ou "É-cigano-mas-eu-não-sou-racista!".
Enfim... estão a ter uma ideia? Na soberba arte do insulto temos de pensar a quem dirigimos o insulto, não interessa se nos damos bem com toda a gente, se temos n amigos homossexuais, se conhemos prostitutas simpáticas, se nascemos na Cova da Moura ou no meio das gentes simples da serra, tudo serve para denegrir o alvo.
E dito isto, dirigido à minha vizinha de casa, que tem a mania que é alguma coisa, um exemplo de insulto à moda da minha terra:







