
Em Português Spirited Away foi traduzido para A viagem de Chihiro.
Qualquer uma das versões transporta-nos para um mundo paralelo, regido por regras diferentes e completamente estranhas para não-aptos.
Para nós ocidentais essas regras ainda são mais incompreensíveis: a nossa cultura, o nosso sistema de símbolos não abarca estes conteúdos, estas novas formas de significação.
E enquanto uns rejeitam, outros ficam extasiados, sedentos de mais, e mais!
Confesso que a mim me fascina a existência de um mundo paralelo, em que os sonhos e os pensamentos mais íntimos e negros se concretizam, em que sonho e realidade não têm aquela linha, se bem que ínfima, de separação, em que a qualquer momento saltamos de um mundo para o outro, sem pré-aviso, e somos responsáveis não só pelos nossos actos, como também pelos nossos pensamentos e devaneios.
Responsáveis pelas decisões que tomamos nos nossos sonhos, como se da vida real se tratasse, sem redenção, em que aquilo que sonhamos influencia abertamente aquilo que se passa no reles quotidiano, no nosso e no daqueles que tenham a pouca sorte de representar como figurantes ou actores secundários nos nossos sonhos.
E estas múltiplas opções abrem um caminho vastíssimo na produção literária, mas ao mesmo tempo trazem em si problemas morais e éticos: como se pode responsabilizar alguém por algo que pensou? Como se pode punir alguém antes da tomada de decisão final, antes dessa decisão ter consequências irreparáveis?
Porquê punir alguém por uma opção diferente no mundo inconsistente dos sonhos, em que tudo se apresente enevoado, os movimentos toldados naquelas inexplicáveis malhas, e em que nos vemos perante os dilemas morais mais absurdos e surreais, que a ter algum significado, será um significado maior, que não alcançamos.
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Acordei estremunhada.
Aquela cara... pavorosa.
Não, não me lembro de ninguém assim, eu não conheço aquela pessoa. Horrível... olhava-me fixamente, com os olhos arregalados, impositivos... e aquela cor... parecia morto, arroxeado, de cadáver em avançado estado de putrefacção.
Não, nunca conheci ninguém assim. Será que isto tem algum significado. Não ouvi nada, tenho a certeza, não há qualquer mensagem, só aquele olhar, acusador, como se eu estivesse em falta! Mas falta-me fazer alguma coisa?
Será que este sonho continua? Será que vou sonhar mais vezes com isto? QUE HORROR! VA DE RETRO QUE EU PRECISO É DE DESCANSAR!
Dois meses depois fui notificada da morte de MB, emigrante de leste, contumaz e ausente em parte incerta. Não foi presente a julgamento. O processo foi arquivado por extinção da responsabilidade penal.
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Falávamos. Não me lembro de como esta conversa tinha começado, mas tu olhavas-me irado, farto. Incomodado. "Que foi? Chateia-te que tenha cabeça? Que saiba o que se passa? Que veja o fim antes de acontecer? Que veja mais longe que tu?" - respondia também irada.
Do nada veio aquela bofetada, e eu repliquei com força.
Repentinamente acordei, sozinha. Doía-me a face e os músculos todos. Telefonei-te. "Estás acordado?" -"Sim. Acabei de ter um sonho esquisitíssimo contigo" - "Ai sim? E lembras-te como era? Alguma coisa... menos decente?" - "Já não me lembro bem, mas deve ter sido algo assim desse género! Ahahahah!"
(Pobres, sempre um passo atrás)