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domingo, novembro 11, 2007

Rua da Ilha - The grand finale

Estava já a estudar para as segundas frequências quando se instalou o desespero. Já entrava pelo quarto adentro sem bater à porta, sem pedir licença. Encontrava as coisas sempre diferentes quando regressava da faculdade... e quando falava disso com os progenitores, esbarrava num muro de total incompreensão: "Oh, no meu tempo era pior! Discutiam connosco porque queriam que só tomassemos um banho por semana, vê lá! Tinhamos de tomar banho às escondidas! Era uma emoção! E na República das Odaliscas... só lavavam a loiça quando não tinham onde comer! Chegavam a andar à bulha só para decidir quem era a pobre coitada que tinha de lavar a loiça com semanas!" - Mas mãe! Eu não tenho de passar por isto. Ninguém hoje em dia se sujeita a uma situação assim?!? - "E no Porto! Vivi numa República que se chamava Já Não É... sabes, com aquela lei da ditadura que proibiu a prostituição, as antigas casas de putas ficaram vagas e só os estudantes é que iam para lá... nós tinhamos um placa a dizer Já Não É para avisar os clientes mais distraídos!" - Mas ninguém me compreende? A velha está a dar cabo de mim. Isto é terrorismo psicológico! - "Filha, não vais sair agora a meio do ano, em plena época de frequências, esperas pelo Verão e depois escolhes uma casa com mais calma".
E a medusasss lá teve de se arranjar com o que tinha... Foi às páginas amarelas e viu: Finanças... ora bem, morada... número de telefone... secção de fiscalização... hummm ok!
- D. Conceição, já lhe disse que não pode entrar no MEU quarto, que pago para poder utilizar, nem quando estou ausente, nem muito menos enquanto cá estou! Está a ver este número? Eu leio para poder compreender melhor! É o número das finanças! É o 239 xxx xxx! Se continua a chatear-me vai ver! Telefono-lhes e depois quero ver como é que lhes explica toda esta gente que tem nesta casa, sem contrato, nem recibos!
Os últimos 2 meses foram de paz...

sexta-feira, novembro 02, 2007

Rua da Ilha - O retorno da velha

Viver na Rua da Ilha não era aconselhável a cardíacos, e muito menos a pessoas nervosas que sofressem de ansiedade ou depressão nervosa: a velha acordava todas as manhãs às 8h00, punha as torneiras no máximo (quando uma de nós estava a tomar banho), e às 9h00 ouviamo-la a regressar para a cama, exalando suspiros de satisfação.
A gata velha e ninfomaníaca tinha o péssimo hábito de se tentar esgueirar para dentro dos nossos quartos, onde deixava lindos e bem cheirosos presentes em cima das colchas, sacos de viagem... já que a carpete era o último recurso de malvadez, quando não havia tempo suficiente para alcançar os outros locais.
Lembro-me, daquela deliciosa vez em que a velha perdeu as chaves. Ela que nunca perdia nada! Que, salvo o devido respeito que é muito, era a perfeição em pessoa, cuja letra infantil não era grosseira nem o seu português cheio de erros. Nós, vulgares mortais, é que não nos apercebiamos da genialidade em forma humana, que constamente se revelava sob a forma de GÉNIO DO MAL!
E pois que aquela casa era o seu último reduto, e o seu objectivo de vida era transformar a nossa vida num Inferno, à semelhança da existência dela, sem perder os tostões ao final do mês...
Contudo a vingança é um prato que se serve frio, e que se saboreia ainda melhor quando nos é colocado no caminho por circunstâncias para as quais não tivemos qualquer influência.
Quis a sorte que numa 5ºa feira da Reunião das Testemunhas de Jeová, onde a velha ia, e continua a ir, aprender mais umas técnicas de controlo mental, e aulas muito sábias de bem pensar, se atrasasse... e a última menina a chegar a casa (eu) visse a porta sem papeis, e toca a correr o fecho. A velha panicou tanto que por pouco me pareceu que ia ter um ataque cardíaco...
Confesso que fiquei genuinamente aflita, porque apesar de não ter noções nenhumas de primeiros socorros (homicídio por omissão), no máximo ligaria ao INEM, jamais dedo meu tocaria naquele relicário da maldade popular.
Pois, panicou mas aguentou-se firme, que a maldade dá-nos sempre razões válidas para continuarmos activos, e no dia seguinte já estava toda fina a tecer comentários depreciativos sobre C, que tinha desenhado cachorros de propósito no papel higiénico só para a chatear (Scotex... desenho de fábrica... impressão automática... duh!!!), e comentando em voz alta (nós eramos muito más, deixavamo-la a falar sozinha) que a tragédia de Entre-os-Rios tinha sido castigo de deus, que eles iam todos era com o tintol em garrafões, e que tinha sido muito bem feito.
E nós, quando tinhamos de olhar/passar por ela, adoptavamos postura erecta e rígida, puramente defensiva, não fosse dar-lhe um acesso de loucura e tentar bater-nos.
Há dias encontrei-a na baixa... eu estou mais velha, mas ela está na meeeeeeeesmaaaaaaaaaa!

domingo, setembro 23, 2007

Rua da Ilha - Burn the witch

Entretanto dei por mim a entrar permanentemente em conflito com a velha: era ela que invadia os quartos, era a persiana aberta quando devia estar fechada, eram as infiltrações que gotejavam pelo candeeiro, que escorriam pelas paredes em intricados labirintos e nos deixavam em pânico sempre que se acendia a luz; era a canalização de tão velha que deixou de funcionar (oh menína, não pônha os cabêlos na saníta porque eles opois não passam i ísto fica tudo entupído?!), o esquentador que se avariou, as chaves de casa que se perderam ("Teinho o dêmo cá em casa! Deisde que veio pracá que tudo deixou de funcinar! Vócê é o demónío!..." ao que eu respondi olhando-a de cima abaixo "demónio é você, tem isto tudo a cair de podre! Olhe, é castigo divino!").
Volvidos 10 tenebrosos meses, saí para nunca mais entrar. Volta e meia vejo-a na baixa, igualzinha, com os mesmos olhos pequenos e negros ardentes de inveja, malvadez e doença, e com um calafrio penso... como é possível alguém ser tão ruim?
E vem-me também ao pensamento, e eu juro que afasto logo a ideia mal me assoma a consciência: será que ainda tem o mesmo carro? A rua ainda é de paralelos... e daquela vez que lhe partiram o vidro da janela!...

sábado, fevereiro 24, 2007

Rua da Ilha - o início

Na Rua da Ilha, numa casa cheia de regras e papeis velhos afixados a pionés, escrevinhados numa letra infantil e irregular, com erros ortográficos, rasurados, riscados, vivia e ainda vive uma velha "senhora", de aspecto intemporal, como todas as velhas destinadas e determinadas em infernizar a vida dos outros.
Esta "senhora" era, e deve continuar a ser, muito zelosa dos seus bens materiais. Mal entrávamos tinhamos um papel a avisar-nos da necessidade imperiosa de só usar chinelos naquela casa. Todos os dias o ritual repetia-se: descer as escadas do 1º andar, com especial cuidado para não cair, já que havia nada menos que duas passadeiras sobrepostas, uma muito antiga e com aspecto muito sujo, a segunda de aspecto ainda mais sujo, mas daquelas baratas que se compram a metro nas retrosarias, descalçar os chinelos, calçar sapatos, descalçar sapatos e calçar chinelos, correr ao 1º andar em busca do guarda-chuva, descer as escadas, tropeçar, não cair, descalçar chinelos, calçar sapatos, sair.
No 1º andar e no R-chão continuava a haver tapetes por cima de tapetes. O chão tinha frio e carecia de aquecimento extra. Devido a grande fragidade de saúde do chão, os tapetes nunca eram removidos e havia uma camada de pó que era renovada todas as semanas com a ajuda de um aspirador tão velho que já ninguém adivinhava a cor original (com design robótico da guerra das estrelas, episódio IV).
Na casa de banho do 1º andar, o esquentador a gás convivia paredes meias com o "poliban" (quando tomei conhecimento dos taliban, pensei: devem ser da mesma família, mas um é poli, dá para mais coisas, o outro é tali, de grande), e com demais artefactos de louça, todos empilhados nuns exíguos 6 m2. Como o vapor dava cabo da alva pintura das alvas paredes, tomava-se banho com a janela aberta, já que as correntes de ar fortificam a saúde.
Colado a fita-cola, adivinhava-se uma mensagem encriptada que dizia qualquer coisa como: "É fa bor nao mecher no butão do gaz". Tal pedido nunca era atendido, já que urgia colocar o botão no máximo sempre que a velha decidia que 10 minutos no banho já era tempo de mais, e tomada de uma fúria valkirica, abria todas as torneiras na cozinha e casa de banho e deixava a infeliz sem água quente. Sim, mais de 10 minutos de banho era um horrível dispêndio de água e gás!.
Das janelas enormes do quarto havia uma vista maravilhosa sobre telhados multicolores em escadinha e ao fundo, o rio. Mas a janela não podia permanecer aberta. O sol danificava a madeira, e a única maneira de a proteger era fechando as persianas.
Quando chovia a água escorria torrencial pelas paredes, pelo candeeiro, utlizando caminhos trilhados por fios eléctricos, milagrosamente.
Na cozinha conviviam em perfeita desarmonia a gata velha, ninfomaníaca e frustada sexual com os dois canários estridentes e ensandecidos. Os azulejos que revestiam a parede do fogão não viam produtos de limpeza há anos, e no chão era frequente pisar pedaços de ração de gato bolorenta. Na pia, misturava-se indiscriminadamente os pratos sujos de refeições gordurosas com vários dias e o prato da gaiola dos canários, repleta de merda de pássaro.
Nunca cheirava a mijo de gato naquela cozinha, já que a velha achava que o telhado servia de depósito das necessidades do animal.
A porta de entrada, de madeira sólida e repintada 5 vezes tinha um fecho de correr que só abria do interior, que era meticulosamente fechado todas as noites, um ritual minuciosamente cumprido, não fossem os ladrões entrar connosco lá dentro.